A Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega (CIMAT), que engloba os concelhos de Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar, apresentou publicamente as estratégias que estão a ser pensadas para promover o desenvolvimento do território do Alto Tâmega. Em entrevista, o presidente da CIMAT, Fernando Queiroga, presidente da Câmara de Boticas, salienta que o sucesso da região passa por potencializar as suas mais valias, envolvendo os vários agentes locais.

A Voz de Chaves: A diminuição da população é uma situação que está no centro das preocupações da CIMAT. O desenvolvimento da região pode ficar comprometido com esta situação?

Fernando Queiroga: Quando partimos para uma nova etapa da resolução de problemas temos de ser realistas e a diminuição da população, a um ritmo crescente, é um problema, mas não é um drama.
Inverter este processo é uma das nossas maiores preocupações e prioridades, pelo que o nosso lema é atrair e fixar pessoas, através da criação de condições para que permaneçam neste território. Só desta forma poderemos ter um desenvolvimento sustentado na região e sabemos que esse desenvolvimento só acontece com a implementação de medidas atrativas e que permitam fixar a população.

Uma das linhas mestras que a CIM apontou é a “capacitação”. O que, em concreto, se pretende?

Não queremos dizer com isso que as pessoas da região não são capazes ou não têm capacidades para inverter a desertificação. Não, não é isso. Quando falámos em “capacitação” estamos a pensar na promoção de competências específicas que permitam às pessoas desenvolver a sua atividade de forma mais eficaz e responder a novos desafios e ideias, o que permite acrescentar valor aos produtos desta região.
Sabemos que os produtos da região são de excelente qualidade e o nosso objetivo passa por valoriza-los ainda mais, através da promoção desses mesmo produtos em mercados externos, o que permitirá aumentar o número de vendas. Essa será uma mais valia para o desenvolvimento deste território.
Temos de ter em conta que para valorizarmos ainda mais os nossos produtos temos que estar recetivos à sua transformação, não numa vertente de produção industrial, mas antes numa vertente de modernização. Para mantermos esta mais valia na região temos que dar ferramentas às pessoas para poderem responder, de forma eficaz e sustentada, a novos desafios.

Além dos produtos agropecuários, a “Natureza” também é considerada um setor fundamental?

Com certeza. Temos que aproveitar ao máximo o facto de a região ter uma vertente natural grande. Além de ser um fator fundamental e que proporciona qualidade de vida às pessoas é, cada vez mais, um motivo de atração de turistas para a região.
Apesar de se já terem dados os primeiros passos no desenvolvimento e promoção do turismo de natureza, através da realização de iniciativas diretamente ligadas a este setor, ainda não estamos a usufruir de todas as potencialidades existentes na região.
Estamos conscientes que a empregabilidade é o pilar fundamental para a fixação da população e, por esse motivo, é importante que todas as entidades do Alto Tâmega continuem a trabalhar em rede.
A CIM, a ADRAT e as Câmaras Municipais dispõem de equipas especializadas para informar e ajudar todos aqueles que pretendam candidatar projetos inovadores aos apoios comunitários em vigor. Ainda recentemente lançamos uma iniciativa designada de “Concurso de Ideias”, cujo objetivo é premiar aqueles que promovam ideias inovadoras para a região, contribuindo simultaneamente para o desenvolvimento e fixação de população na região.
Estamos a criar as condições necessárias para que se possa investir no Alto Tâmega, no entanto, precisamos que as pessoas coloquem em prática as suas ideias de negócio.

O turismo é também um dos pilares do desenvolvimento da região. Que estratégia está a ser seguida?

Em primeiro lugar, queremos que este território seja conhecido pela vertente ligada à saúde e bem-estar, sendo a água e a natureza os grandes impulsionadores, uma vez que a água é um setor transversal a todo a região, quer pelas águas termais, quer pela produção industrial de água engarrafada.
Mas para que o desenvolvimento deste território se efetue também é necessário o envolvimento e empenhamento do setor turístico privado.
É fundamental que as unidades hoteleiras existentes na região tenham consciência que o desenvolvimento e crescimento só é possível através da prestação de um serviço de boa qualidade.
Quem nos visita procura experiências diferentes e únicas e senão soubermos apresentar tudo aquilo que temos para oferecer de forma atrativa, acabamos por passar uma imagem negativa da região e não é isso que pretendemos. Como referi anteriormente, temos que estar todo empenhados no mesmo objetivo que é promover e divulgar todas as potencialidades da região, só assim conseguiremos alcançar o sucesso.

Também é verdade que, para o sucesso e desenvolvimento de uma região, a prestação de cuidados de saúde é fundamental. Como vê a situação do Hospital de Chaves, no âmbito da prestação de cuidados de saúde?

Vejo a situação com preocupação, mas acredito no bom senso das pessoas que estão à frente do Centro Hospitalar. Já foi agendada uma reunião para nos inteirarmos daquilo que se pretende para o Hospital de Chaves.
Acreditamos nos profissionais e vamos tentar perceber aquilo que está previsto para a unidade hospitalar. De facto, o Hospital de Chaves não pode, de ano para ano, perder capacidades de resposta importantes. Estamos num território abrangente e sabemos qual a importância do tempo de resposta a situações urgentes.
Se queremos que esta região seja atrativa não podemos, de maneira nenhuma, descurar o setor da saúde.

De alguma forma, as redes viárias intermunicipais também não ajudam… Existe algum projeto ou ideia para reunificar estas vias?

Há intenções e projetos, mas de momento ainda não é oportuno serem apresentados, sabendo de antemão que não vamos ser tidos em conta.
Consideramos que as vias intermunicipais são fundamentais pelo que irão ser apresentados, ao próximo quadro de apoios, projetos importantes. Poder-se-á dizer que é uma pretensão, porém, não corresponde à verdade a ideia que Bruxelas não financia infraestruturas viárias, foi uma mensagem que nos passaram num passado recente, errada. A região precisa de mais mobilidade entre os vários concelhos da CIM-AT
Queremos, um querer que é também de exigência, reclamar o atraso a que a região do interior foi votada.
Da mesma forma que Portugal reclama a coesão dos países da Europa, também nós exigimos a coesão nacional. A autoestrada chegou com uns anos de atraso e perdemos a rede ferroviária, temos que exigir que nos devolvam aquilo que nos tiraram.

O “Caminho de Ferro” é uma exigência?

Se estamos a trabalhar no sentido de divulgar os nossos produtos e aumentar as exportações é fundamental que haja na região uma rede ferroviária. Posso apenas adiantar que estamos empenhados para que uma das ligações ferroviárias entre Portugal e Espanha passe no nosso território.

Um outro pilar para o desenvolvimento do Alto Tâmega é a “Indústria Extrativa”. Está-se a pensar, essencialmente, no “Lítio”?

Não estamos a pensar apenas no lítio. A região tem outras potencialidades relacionadas com a indústria extrativa, como por exemplo o granito, como os granitos de Boticas e de Vila Pouca de Aguiar. A preocupação maior, como já foi referido, além da venda em bruto, passa por transformar a matéria prima.
Quanto ao lítio, é um assunto que requer algum cuidado, para não cairmos na especulação.
Mas a verdade é que, sendo o lítio um recurso natural deste território, é justo que também o território beneficie com a sua extração. No entanto, temos três preocupações fundamentais que se prendem com a dinâmica económica daí resultante, a preservação do meio ambiente e a defesa das populações.
É nosso dever, enquanto autarcas, promover o desenvolvimento económico e social deste território e defender o bem-estar e a qualidade de vida da população. Por isso aguardamos dados mais concretos e objectivos para posterior tomada de decisão.

Paulo Chaves

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