Nasceu em Moçambique mas viveu desde os cinco anos, e até aos 27, em Chaves. Desde 2005 nos Açores, o flaviense Luís Pires tem ganho destaque ao longo dos anos no futebol do arquipélago. Há três épocas consecutivas como coordenador da formação do Santa Clara, o transmontano de 49 anos viveu de perto o regresso da equipa principal à Liga. À Voz de Chaves, o professor de profissão abordou o seu trabalho no futebol, recordando ainda a passagem pelo Desportivo de Chaves.

A Voz de Chaves: A época do Santa Clara terminou com o clube a ter a certificação de entidade formadora, foi importante para o clube e a nível pessoal?
Luís Pires: A época do Santa Clara terminou com o objetivo principal do clube alcançado – O CD Santa Clara e os Açores regressam, após 15 anos, à I Liga! A Certificação do Santa Clara como Entidade Formadora da FPF foi para nós, clube e respetiva Formação, a cereja no topo do bolo, ou seja, apesar das dificuldades inerentes ao contexto que estamos inseridos, com uma densidade populacional baixa, a Formação do clube consegue dar um passo qualitativo de forma a poder acompanhar a evolução sustentada do futebol de formação em Portugal. A nível pessoal senti que a persistência e a dedicação deram os seus frutos. Etapa, importantíssima para o clube, cumprida. Já estou focado na próxima.

Como tem corrido o trabalho enquanto coordenador da formação?
Ser Coordenador do Futebol de Formação do CD Santa Clara tem sido tão difícil e esgotante, como apaixonante e motivador. Os inúmeros obstáculos que têm surgido, a todos os níveis, só se conseguem ultrapassar com uma enorme paixão por aquilo que se faz e com uma vontade imensurável em querer fazer bem.

O Santa Clara chegou à Liga, como tem o clube e a ilha vivido com isso?
As pessoas, não só da ilha de São Miguel como de todo o Arquipélago dos Açores, assim como, os emigrantes açorianos ‘espalhados’ pelo mundo, estão apaixonadas com este feito. O clube representa uma Região que já há muito tempo está afastada da I Liga de Futebol, o feito alcançado, este ano, é motivo de enorme orgulho e da força dos Açores. Da mesma maneira que o Desportivo de Chaves está para os transmontanos. Há uma enorme ansiedade e vontade para que o campeonato comece e o futebol ao mais alto nível regresse aos Açores.

Foram muitos anos fora da I Liga, estará a estrutura preparada para o regresso?
A estrutura do clube, apesar de jovem, é dotada de gente experiente, capaz e inteligente. O novo mister, João Henriques, é uma pessoa que aprecio, pelo seu perfil e pela sua ideia de jogo, terá, juntamente com a sua equipa técnica, todas as condições logísticas, para fazer um bom trabalho. O plantel tem a base da época passada, onde fomos, apesar de ser suspeito, a melhor equipa. Essa base, juntamente com as novas e cirúrgicas contratações farão um plantel capaz para atingirmos o objetivo principal para esta época, que é a manutenção.

Fale-nos um pouco do seu percurso desportivo nos Açores?
Quando cheguei à ilha de São Miguel, no final de agosto de 2005, depois de ter deixado de jogar futebol há um ano, uma vez que na época 2004/2005 fui Secretário Técnico do GD Chaves, voltei a calçar as chuteiras no Capelense S.C., no Campeonato que dava acesso à antiga 3ª Divisão Nacional. Passados dois meses, o presidente do clube, atual Presidente da A.F. de Ponta Delgada, Eng.º Robert Câmara, convidou-me para ser treinador da equipa sénior, com o objetivo de subir à 3.ªDivisão Nacional (Série Açores). Aceitei e conseguimos o alcançar o objetivo.

Foi o início de uma outra carreira…
Foi o início de uma carreira de treinador de equipas de futebol sénior, da 3ª Divisão Nacional-Série Açores e do Campeonato de Ilha, que terminou em agosto de 2015, 10 anos depois. Em agosto de 2015, já com a atual Direção, fui convidado pelo CD Santa Clara para treinar a equipa de juniores do clube. Aceitei. Na época seguinte, a direção do clube, convidou-me para ser o Coordenador do Futebol de Formação a tempo inteiro, ou seja, seria profissional do clube e teria de abandonar a escola, uma vez que, sou professor. Agradeci o convite, mas não aceitei. Disse que o risco era enorme e que eu conseguiria ‘dar conta do recado’ em regime de part-time. Felizmente, a direção aceitou a minha contraproposta, e estou a começar a minha terceira época como Coordenador do futebol de formação do CD Santa Clara. Em paralelo à minha carreira de treinador, de coordenador e de professor, tenho sido solicitado pela AF Ponta Delgada/FPF, desde 2009 até à presente época, para formador de treinadores UEFA “C” e UEFA“B” da FPF, das disciplinas de Metodologia de Treino de Futebol e Técnico-Tática. Desde 2016, após formação na Cidade do Futebol, sou Formador de Treinadores UEFA.

Dos seniores para a formação, qual é a área que prefere?
Ver o crescimento e a evolução dos ‘miúdos’ na formação encanta-me, mas o futebol sénior continua muito presente nas minhas veias. No entanto, sinto-me muito bem em ambos os contextos.

Quais os objetivos na carreira?
O objetivo principal é ser amanhã melhor pessoa e melhor profissional do que fui hoje. Não tenho planos imediatos, mas tenho sentimentos natos. Sei que, seja qual for o trabalho que estiver a desempenhar fá-lo-ei com alma, porque o compromisso emocional com o que faço faz parte do meu ADN.

Falemos dos tempos no Desportivo de Chaves, como recorda essa altura?
Recordo com saudade. Infelizmente, não tínhamos as condições nem a estrutura que têm agora.

Que trabalho foi desenvolvido?
Na minha última época no GD Chaves, 2004/2005, fui Secretário Técnico do clube. A parte da logística dos jogos, dos estágios e dos treinos do clube passava por mim, sempre respeitando hierarquias. Por vezes, fiz papel de adjunto.

Como vê agora o atual Desportivo?
O trabalho desenvolvido pela atual direção tem sido fantástico. Eu não olho só para os resultados, olho para o futuro. Vejo um GD Chaves com futuro. Estou muito grato à atual direção do clube por fazer “ressuscitar” a maior bandeira de Trás-os-Montes.

Que condições tem o clube para fazer história na Liga?
Acredito que o objetivo será o mesmo ao da época passada, lutar por um lugar europeu. Têm um excelente treinador, que conheço bem. O Daniel Ramos é um treinador e um ser humano fantástico. Acreditem no trabalho dele.

Ainda acompanha os jogos do GD Chaves?
Sempre que posso. Sou sócio do clube. Vi, por exemplo, o Vit.Guimarães-Chaves da 1.ªjornada, em Guimarães, e os restantes que deram na televisão.

Como vai assistir aos encontros Santa Clara-Chaves e Chaves-Santa Clara?
Tal como assisti na época anterior ao jogo da Taça de Portugal. Como já referi o compromisso emocional é fundamental, seja qual for o trabalho ou a função que desempenhas. Apesar da minha enorme, quase umbilical, ligação ao GD Chaves, vou torcer pelo Santa Clara, mas desejo que o Chaves ganhe todos os restantes jogos.

Tem como objetivo voltar a Trás-os-Montes e a Chaves?
Apesar de me sentir muito bem nos Açores e adorar a ilha de São Miguel, acredito que um dia regressarei a Chaves.

Diogo Caldas

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