Há 12 anos, Jorge Teixeira, professor de Física e Química, em Chaves, fundou o Clube do Ensino Experimental das Ciências, “uma ideia fora do comum” que lhe valeu a distinção no Global Teacher Prize. O “porquê das coisas” foi o que motivou o flaviense a criar o projeto que será replicado em várias escolas do país.

O anúncio do vencedor do Global Teacher Prize foi feito na quarta-feira passada, dia 16, numa cerimónia que se realizou no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.
Já na cidade flaviense, o jornal A Voz de Chaves foi conhecer este professor com 25 anos de carreira e que, apesar da distinção, não quer ser conhecido como “o melhor professor” mas sim como “o professor inspirador”, cujas ideias, trabalho e dedicação levaram à conquista deste prémio.
Jorge Teixeira considera que os professores do interior enfrentam mais obstáculos do que aqueles que vivem em outras zonas do país. No interior faltam recursos, como é o caso das universidades, dos espaços de ciência viva, e de outros locais que poderiam ser benéficos para os estudantes. Porém, o flaviense lembra que apesar das dificuldades é possível fazer tanto como nas outras regiões onde o acesso a esses recursos é mais facilitado.
“Nós combatemos a interioridade com ideias e penso que isso foi muito valorizado na conquista deste prémio. O que eu quero agora é inspirar outros professores a mostrar os seus projetos, porque existem por aí projetos muito bons”, frisou.
Com o prémio de 30 mil euros o docente vai poder continuar a desenvolver o ensino experimental em outros estabelecimentos de ensino e já são várias as escolas do país interessadas em conhecer melhor o projeto deste professor transmontano.
Na cerimónia que aconteceu em Lisboa, Jorge Teixeira fez questão de dedicar o prémio aos professores de Chaves e aos da região, esperando com a sua participação ter contribuído para a evolução do ensino na região. “Com o apoio de todos, agora vamos tentar fazer mais e melhor”.
No concurso foram apresentadas 110 candidaturas de professores de todas as escolas do país e, de entre todas, o júri selecionou as dez melhores propostas.

Clube do Ensino Experimental das Ciências abrange mais de 400 crianças no concelho de Chaves

Jorge Teixeira começou a sua carreira profissional na área da engenharia e durante três anos dedicou-se ao ensino superior, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Ao fim desse tempo decidiu que aquilo que queria ser mesmo era professor do ensino secundário.
“Toda a gente dizia que eu não estava muito bom da cabeça”, recorda sorrindo. “Depois de ter tirado um curso superior e de estar a dar aulas na universidade, voltar atrás e tirar um novo curso para ser professor do ensino secundário, não é assim muito normal”.
Jorge Teixeira passou por Coimbra, Valpaços e regressou, mais tarde, a Chaves, onde deu aulas nas Escolas Dr. Francisco Gonçalves Carneiro, Fernão Magalhães e, por último, na Escola Dr. Júlio Martins, onde leciona há cerca de um ano.
O Clube do Ensino Experimental das Ciências foi fundado em 2006 quando dava aulas na Escola Secundária Fernão Magalhães.
Naquela altura a criação do clube foi uma “ideia fora do comum” e que veio revolucionar a forma como as aulas eram dadas. Nesse espaço, os alunos tinham a oportunidade de experimentar a matéria que tinham dado na sala de aula do ensino formal. O clube foi evoluindo, o professor e os alunos foram construindo novas atividades, começaram a participar em outros projetos, publicaram artigos, e, neste momento, o clube funciona como “uma fábrica do aluno empreendedor, cujas ideias podem ser aplicadas desde o pré-escolar até ao ensino universitário”.
Atualmente, as atividades são desenvolvidas nas várias escolas do Agrupamento de Escolas Dr. Júlio Martins, abrangendo mais de 400 alunos do concelho, e Jorge Teixeira confessa que tem obtido resultados positivos.
“O impacto nos alunos é significativo. Os resultados escolares melhoram, inclusive nos exames”, afirmou o professor, adiantando que as suas atividades também provocam impacto na comunidade, servem de formação para professores, promovem a interação com os encarregados de educação, ajudam a elevar o papel do professor dentro da sociedade, permite ao aluno perceber se quer seguir a área das ciências a nível profissional e facilita aprendizagem da matéria lecionada.
E o mais importante de tudo, continua o responsável, é que as crianças podem continuar a questionar-se sobre o “porquê das coisas”.
“As crianças ao fim de estarem um ano ou dois na escola esquecem-se do porquê de tudo. Mas eu acho importante que elas se continuem a questionar sobre as coisas”. Outro aspeto importante que na opinião do professor torna as suas aulas mais agradáveis é o facto de as crianças terem liberdade para brincar.
O Global Teacher Prize aconteceu este ano pela primeira vez em Portugal e pretende premiar o trabalho desenvolvido por professores, desde o ensino pré-escolar até ao secundário, que se destacaram nas suas áreas. É uma espécie de “nobel da educação” que permite reconhecer o mérito dos educadores junto dos estudantes e da sociedade em geral. O prémio nasceu por iniciativa da Varkey Foundation e no nosso país contou com a colaboração da associação “As mentes empreendedoras”.
Para o ano, o professor de Chaves vai concorrer ao prémio internacional do Global Teacher Prize e tentar trazer para a cidade um milhão de dólares para investir em novos projetos de ciência.

Cátia Portela

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