Uma Casa das Artes na aldeia volta a ganhar cor com pintura ao vivo

A 10 km de Chaves, a Casa das Artes de Rebordondo está a ganhar vida nova. Desde Março, o pintor flaviense Alfredo Cabeleira está a dar aulas de pintura neste espaço rural e, no passado sábado, organizou um atelier de artes ao vivo com alunos de várias escolas, como a de Boticas, que já se tornou uma referência.

 

Paisagens rurais de Rebordondo passaram para a tela no passado sábado, 4 de Agosto, através do pincel e da criatividade dos alunos do artista flaviense Alfredo Cabeleira. Foi um dia de pintura ao vivo na Casa das Artes da aldeia, cujos “frutos” serão expostos em Setembro na sede da associação Chaves Social, que pretendeu chamar a atenção da comunidade para este espaço que o pintor está a fazer reviver desde Março com aulas às sextas-feiras. “Vou tentar que seja divulgada, tenha sempre uma exposição de alunos ou pintores da cidade e entre na rota turística de Chaves”, revelou Alfredo Cabeleira.

 

Neste dia dedicado à pintura, o pintor juntou alunos de Valpaços, Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Castrelo de Vale (Espanha). Da Escola Municipal de Artes de Boticas, vieram três alunos. Agricultor e a residir em Vidago, João Luís Afonso, 47 anos, iniciou-se na pintura em Fevereiro. “O desenho foi algo que sempre gostei, mas nunca pintei. Há dois anos que andava para ir para a escola e lá me decidi”, contou. Não se arrepende: já aprendeu algumas técnicas, como passar um desenho para a tela, e até expôs os primeiros trabalhos na mostra de pintura anual dos alunos da escola de Boticas – este ano intitulada “Fauna Transmontana” –, que depois de ter sido exibida aos botiquenses, está patente ao público na sede da associação Chaves Social, na Madalena, até final do mês.

 

“É uma exposição que está a ter muito sucesso porque já tenho vários convites para levá-la não só a Chaves, mas por exemplo à Feira da Caça de Macedo de Cavaleiros. É diferente porque é raro ver-se uma exposição só de fauna”, considerou Alfredo Cabeleira, destacando que alguns dos 35 quadros são de “qualidade elevada”. Todos os meses, Alfredo Cabeleira promete ter uma exposição na Chaves Social, da autoria de aprendizes ou pintores da região. “Vou tentar que tenham alguma qualidade. Hoje em dia, as pessoas estão cansadas de ir ver exposições porque saem um pouco decepcionadas com a qualidade”, lamenta. A partir de Setembro, o pintor irá iniciar aulas de pintura na Chaves Social, onde expôs no mês passado, após cinco anos sem mostrar trabalhos na cidade natal.

 

“Boticas está em Trás-os-Montes como uma referência a nível de arte”

 

Também com um pincel em Rebordondo, estava a botiquense Ana Luísa Pires Monteiro, que pinta há muito, mas frequenta a Escola Municipal de Artes de Boticas desde o início para “obrigar-se” a “ter tempo para pintar”. Aos sábados, Alfredo Cabeleira ensina 35 botiquenses dos 8 aos 70 anos. “É sempre um momento muito agradável com os colegas porque o grupo é muito unido”, considera a professora de Matemática, que pinta mais a óleo desde que tem aulas com o “amigo” Alfredo Cabeleira, que garante ser um professor “atento”.

 

Desde 2006, a Câmara Municipal de Boticas tem apoiado a Escola de Artes para tornar a pintura acessível a todos. Devido à escola, ao Centro de Artes Nadir Afonso – que será inaugurado em Setembro – e às exposições mensais de pintores de renome no átrio da Câmara, “hoje Boticas está em Trás-os-Montes como uma referência a nível de arte”, considera Alfredo Cabeleira. Ana Luísa Pires Monteiro confirma: “Há uns anos não se via pessoas a pintar e ter aquele gosto pela pintura. Agora, mesmo as crianças entram com 5, 6 anos para a escola e gostam muito”. Hoje, “em Boticas, dá-se muito valor ao que as pessoas da terra fazem e por isso as exposições têm muita gente na inauguração e durante o período em que estão expostas”.

 

Chaves Social vai dinamizar Casa das Artes de Rebordondo

Há 10 anos, a Casa das Artes de Rebordondo surgia para resolver problemas familiares e de alcoolismo na aldeia. Até 2009, deram-se formações de carpintaria, entre muitas outras, a cerca de 140 formandos. Depois, o espaço ficou vetado ao esquecimento, mas a autarquia cedeu-o agora à Chaves Social para voltar a dinamizá-lo com ateliers de artesanato e um centro de dia.

No passado sábado, 4 de Agosto, o vice-presidente da Câmara Municipal de Chaves, António Cabeleira, e a presidente da associação Chaves Social, Maria de Lurdes Campos, visitaram a Casa das Artes de Rebordondo, propriedade da autarquia por doação de uma professora benemérita que quis deixar um projecto social e educativo na sua aldeia. O seu desejo foi cumprido até 2009, mas desde então apenas duas costureiras estavam a aproveitar este espaço de grande beleza arquitectónica e recuperado pelo projecto INTERREG, agora com a gestão cedida à Chaves Social para voltar a dinamizá-lo.

 

A Casa das Artes de Rebordondo surgiu em 2002 para “dar competências a famílias de uma área geográfica à volta de Vidago que tinha problemas de índole social, nomeadamente alcoolismo e desestruturação familiar, com um número alargado de crianças sinalizadas pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens e também pela Santa Casa da Misericórdia”, explicou Maria de Lurdes Campos. Volvidos sete anos de formações, “as crianças e jovens cresceram, muitos emigraram, os pais entraram em situação de reforma e agora urge dar uma continuidade a este projecto, nomeadamente o aproveitamento das instalações”, acrescentou.

 

Além do atelier de costura e artesanato, a Casa das Artes de Rebordondo conta agora com aulas de pintura por Alfredo Cabeleira. “Vamos dar apoio a artistas que queiram se vincular a este projecto e a jovens desempregados que necessitem de encontrar um sustento para o seu dia-a-dia, nem que provisoriamente”, apontou Maria Lurdes Campos, esclarecendo que poderão comercializar peças de bijutaria e artesanato doando parte das receitas à Chaves Social para despesas de manutenção do espaço.

 

“Com esta nova dinâmica, a Casa vai ter um impulso novo, também com um centro de dia para que as pessoas idosas possam vir passar aqui parte do dia, de forma a que a Chaves Social possa também arranjar forma de ser sustentável e cada vez menos depender dos subsídios públicos”, apontou o vice-presidente António Cabeleira, que quer dar seguimento ao objectivo inicial da Casa das Artes: integrar a população local. O projecto estará a funcionar em pleno a partir do próximo trimestre.

 

Sandra Pereira

1 Comentário para “Uma Casa das Artes na aldeia volta a ganhar cor com pintura ao vivo”

  1. Aderito Miranda

    É bom ver espaços como estes a serem utilizados.muitos parabens a todos aqueles que fizeram com que isto fosse possivel

Deixe uma resposta

WordPress Blog
Iniciar sessão | Diario Atual - Todos os Direitos Reservados Weboy
Wp Advanced Newspaper WordPress Themes Gabfire