“Dentro do campo, somos todos iguais”
Colocar-se na pele de um deficiente por uma tarde. Foi este o desafio que os alunos do 3º ano do curso de Turismo do Pólo de Chaves da UTAD se autopropuseram ao disputar uma partida de basquetebol em cadeira de rodas com a equipa vice-campeã nacional da Associação Portuguesa de Deficientes de Braga.
Já imaginou como seria jogar um jogo de basquetebol se estivesse numa cadeira de rodas? Foi essa experiência que cerca de 25 alunos do 3º ano do curso de Turismo do pólo de Chaves da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) quiseram testar convidando, nada mais, nada menos, a equipa vice-campeã nacional de basquetebol adaptado, da Associação Portuguesa de Deficientes (APD) de Braga. O jogo decorreu na passada quinta-feira, 3 de Maio, no pavilhão multiusos do Regimento de Infantaria nº19 (RI 19).
Antes do apito lançar os jogos que opunham cinco alunos contra cinco profissionais, o treinador da equipa da APD de Braga deu umas dicas sobre como dominar a cadeira de rodas e manipular a bola. Ricardo Vieira, que treina há 12 anos esta equipa com 14 anos de competição e vice-campeã nacional há dois anos consecutivos, concentrou atenções nas “sapatilhas” destes atletas: as cadeiras, feitas à medida e que custam no mínimo 3000 euros, mas “são muito mais rápidas e móveis”, já que além de três rodas traseiras, possuem duas rodas de patins em linha à frente que “permitem mais velocidade na rotação”.
Em campo, o entusiasmo pela novidade da experiência ressaltava em cada lançamento ao cesto. “É cansativo… Com mais velocidade, a direcção da cadeira torna-se irregular e é preciso mais força para dar impulsão à bola”, admitia, após a partida, o estudante Rui Afonso. Samuel Carvalho, outro aluno, também nunca tinha andado em cadeira de rodas, mas sentiu-se “bem em praticar este desporto com uma equipa unida”. Para o estudante, o mais difícil foi a coordenação da cadeira, mas conseguiu marcar dois cestos. Reconhecendo que a iniciativa foi importante para compreender o “esforço” dos elementos da equipa, Rui Afonso deixou o reparo: “olha-se para uma pessoa com deficiência no dia a dia, mas dentro do campo somos todos iguais”.
Perceber as dificuldades diárias para “fazer mais e melhor no futuro”
No âmbito da unidade curricular Turismo para Populações Especiais, Ana Simões foi uma dos estudantes responsáveis pela organização da actividade, cujo objectivo foi “além de ver, perceber as dificuldades que estas pessoas passam no dia a dia para fazer mais e melhor no futuro”. Já Vítor Monteiro, docente da disciplina, explicou que, ao contrário de Portugal, “a nível internacional o mercado de pessoas com deficiência gera um grande volume de negócios. No Brasil existem agências de viagens que têm estas pessoas como público-alvo, pois têm o mesmo poder de compra, as mesmas necessidades e capacidades, mas para que tenham as mesmas oportunidades, é preciso que os profissionais tenham a visão de perceber que para acederem aos espaços é preciso que estejam adaptados”. Graças a esta disciplina, a UTAD tem vindo a gerar muitas interacções sociais e actividades com diversos grupos com necessidades especiais, desde crianças a idosos.
Apesar de não estar adaptado para receber pessoas com deficiência, os militares improvisaram rampas de acesso ao pavilhão multiusos e refeitório do RI 19, onde decorreu um lanche convívio depois dos jogos. “Desde que não colida com a missão da unidade, o regimento está sempre aberto a receber este tipo de actividade”, garantiu o Comandante do RI 19, Coronel Lima Castanha, que, sobre esta iniciativa, considerou que os militares a acolheram “com alguma naturalidade e solidariedade porque têm consciência que em operações de guerra poderão ficar nesta condição”.
“Com as condições necessárias, o desporto adaptado é mais bonito do que o dito normal”
A APD de Braga nunca recusa um convite para jogar em Chaves, garante Manuel Vieira, vice-presidente da associação. “Primamos por ir aos locais onde não existe este desporto neste patamar para mostrar às pessoas que, com as condições necessárias, o desporto é mais bonito do que o dito normal”, explicou o também atleta, notando que “estas participações e actividades servem para melhorar a condição das pessoas com deficiência e de toda a sociedade”. Por “sorte” ou fruto de muitas acções de sensibilização, a equipa tem conseguido garantir o apoio de patrocinadores. “Somos a equipa em Portugal que mais público consegue ter nos jogos. Na final deste ano em Braga, tivemos mais de 300 pessoas a assistir, sem contar com familiares e amigos”, assegurou o treinador Ricardo Vieira, concordando que, em cadeira de rodas, o basquetebol “torna-se mais espectacular porque é mais táctico”.
Reconhecendo que “já se nota uma preocupação quer nas novas construções, quer na reabilitação e preparação das acessibilidades” nas existentes, Manuel Vieira não vacila quando lhe perguntam o que pode melhorar na sociedade. “Temos que nos pôr na pele do deficiente. Adquiri a deficiência através de uma varicela. Deitei-me no dia 16 de Julho pelos meus meios e acordei no dia seguinte paralisado do pescoço para baixo. É fácil ter uma ideia do que queremos: uma sociedade inclusiva, sem limitações, para que possamos, sem pedir apoio a alguém, levar uma vida mais normal possível”. Neste campeonato, os resultados não contam, só o espírito de partilha e tolerância.
Sandra Pereira










Parabens Sandra pela tua visão do trabalho… um registo importante para a divulgação deste contexto da nossa sociedade.
cumprimentos
victor monteiro