Tubo de ensaio

Belarmino Nogueira

À semelhança do personagem do recente anúncio ao yogurte Adágio eu, sou um apressado. Ao contrário do mesmo personagem, não sou anónimo, porque me conheço. Mas às vezes atraso-me, que tendo em conta a data da efeméride, isto já devia ter saído.

Não me dou bem com a política, e raramente escrevo sobre ela. Há quem o faça melhor do que eu. P’ra mim, é um rio cheio de escolhos, onde se nada com dificuldade e, não raramente, nos afundamos. Mas há uma coisa que me dá coceira.

Pergunto: vota-se num partido político por preencher todos os requesitos que um país precisa para ser governado, ou votamos apenas no mal menor? Se for assim, e tendo em conta todos os que, repetidamente já governaram, quantos males menores é que há? Se não sabemos para onde vamos, é difícil encontrar o caminho certo. «Olhe, vire à esquerda… ou será… à direita…? não sei bem…». Pois, eu também nunca entendi essa política nas duas mãos, do tipo boa e má, como se as mãos não fossem ambas necessárias. E mesmo nesta perspectiva, quem decide qual é uma e qual é outra? É que até à data, os ensaios foram pouco conclusivos.

Uma pessoa esperta, sabe tudo o que há para saber? Não. Sabe apenas algumas coisas no rol das coisas todas que, a sabedoria, tal como a falta dela, costuma estar distribuída pelas aldeias. Então, entre os que sabem umas coisas e os que não sabem coisa nenhuma, o que andamos todos a fazer desde 74 para cá? Experiências. E o que andámos a fazer de 74 para lá? Experiências também. Ou vocês acham que fui eu que andei à turra com a Dona Teresa, lá por mil cento e qualquer coisa?

Precisamos de liberdade? Como do pãozinho. E de organização, imprescindível para viver em sociedade? Também, mas em que padaria se compra?

Temos que fazer alguma coisa para matar o aborrecimento. Mas no caso das revoluções é melhor ir com calma. Se o 25 de Abril fazia falta (aos espanhóis não fez), mais falta fazia, fazê-lo como deve ser: com analgésicos de prevenção prás dores que vinham depois, já que, ponderação, não se compra nas farmácias. Dizem que foi uma revolução exemplar, mas vista daqui, não parece. A rebaldeira, tantas vezes confundida com entusiasmo, sobrepôs-se à sensatez. Os atropelos, à ordem establecida. O vandalismo, em nome da liberdade (uma palavra que nunca devia aborrecer e no entanto…), fez da propriedade privada um “é tudo nosso”. A descolonização, merecia um artigo inteiro, mas demoraria mais tempo a escrever do que demoraram os retornados a fugir com os olhos na nuca. E os cabeças de cartaz que botaram a mãos a tudo isto (literalmente), tantos que até se estorvavam, mudaram o que estava mal e o que estava bem, como quem muda panelas quando muda o cozinheiro. Eu fazia melhor? Não! Mas pior também não fazia, e estudei menos do que eles.

É bonito espirrar se estamos com tosse, mas não se digam as verdades a meias. Falar da repressão como simples danos colaterais, seria uma grande ofensa para com as vítimas dela. O medo, que às vezes até funciona, não é boa política. Mas é redutor castigar o antigo regime sem nunca mencionar o estado em que se encontrava Portugal, com governos sucessivos e ineptos que não duravam mais que algumas semanas e levaram o país à banca rota (à semelhança com o estado actual, não é coincidência). E se não podemos parar de fazer experiências, para acrescentar feriados ao calendário, pelo menos, refreemos a excitação que não é desta, nem de nenhuma outra que vamos ser muito felizes e comer muitas perdizes. Já podemos bufar, mas pagamos igual. Aborrece ver gente berrar contra os que lá estiveram, igualzinho como berram contra os que lá estão e, igualzinho também… contra os que hão-de lá estar. Viva a liberdade de expressão, mas que não fique nada por dizer.

E não volto a falar disto, que já estou farto de me ouvir. E aposto que vocês, também.

 

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